O Anglicanismo é Protestante ou Católico?

O Anglicanismo é a forma mais debatida de Cristianismo. Não apenas é julgado em uma variedade de maneiras por estranhos ou espectadores, mas também pelos próprios anglicanos. Até mesmo para alguém que tenha passado grande parte de sua vida no mundo anglicano, não é fácil desembaraçar o nó e entender mal sobre o Anglicanismo.

O primeiro ponto de discussão é se o Anglicanismo deveria ser considerado como parte do Protestantismo. De suas muitas expressões, particularmente chamam a atenção os denominados anglo-católicos, que mostram uma notável semelhança com o Romanismo. Hoje podem-se encontrar igrejas anglicanas nas quais o interior não difere em nada de uma igreja romana. Essas igrejas anglicanas consideram novamente que a Ceia do Senhor, chamada Missa, é a repetição do sacrifício de  Cristo; os ministros usam vestimentas romanistas, há quase todas as devoções romanistas, como a bênção do Santíssimo Sacramento, a recitação do rosário, e a reverência a Maria e aos santos foi introduzida.

Porém, sem dúvidas, a maioria dos Anglicanos acha isso tão estranho quanto o acha um protestante holandês. Em todo caso, qualquer julgamento estaria errado sobre o anglo-catolicismo do ponto de vista da Igreja Católica Romana, pois a conduta oficial de igrejas anglicanas não deveria ser medida através de critérios anglo-católicos: isso vai, a priori, demonstrar que uma confusão entre as atividades destas igrejas é impossível. Ao contrário dos anglo-católicos há muitos outros anglicanos, cuja visão da natureza da religião Cristã, da Igreja, dos Sacramentos e do Evangelho, é tipicamente protestante. Como resultado de sua formação insular, os anglicanos sabem muito escassamente o quanto sua herança protestante compartilha com sua fé, pensamentos e ações.

Pode ser verdade que os anglicanos frequentemente não gostam de ser chamados de protestantes e que Anglicanismo, como se apresenta hoje, não deveria ser considerado simplesmente como Protestante. Do lado católico e do lado protestante há uma opinião bastante recente sendo difundida, de que o Anglicanismo seria mais próximo da Igreja Católica Romana do que da Reforma. Essa noção teve a sua origem apenas no século XIX, quando o Movimento de Oxford foi um “reavivamento” católico. Deixou rastros permanentes no quadro geral do Anglicanismo de hoje, mas, na forma como assumiu o anglo-catolicismo, permaneceu um elemento estranho e isolado no mundo das Igrejas Anglicanas. (nota do webmaster: o sermão de John Keble, pregado na Igreja de Santa Maria, em Oxford, e intitulado “Apostasia Nacional” foi o iniciador disso. Isso ocorreu em 14 de julho de 1833).

Como resultado da atividade viva e da propaganda, o anglo-catolicismo foi exibido durante um século e muitas pessoas entraram em contato com o Anglicanismo por via do anglo-catolicismo. Por conseguinte, muitas destas pessoas têm a impressão de que o Anglicanismo pertence, em princípio, ao tipo católico de Cristianismo e que só foi influenciado acidentalmente e superficialmente pela Reforma e pelo Protestantismo no século XVI.

Tal visão Neo-anglicana é insustentável. É contrária aos fatos históricos, se levarmos em consideração os fatos, documentos e dados. Esta visão Neo-anglicana está baseada em uma interpretação unilateral, arbitrária dos eventos eclesiásticos e religiosos ocorridos durante o tumultuado e confuso reinado de Henrique VIII. Também desconsidera as características da Reforma visíveis na pregação anglicana e nos escritos do século XVI até hoje. Além disso, está baseada em sérios equívocos sobre a essência profunda da Reforma e seu real conteúdo, sentido e intenção e do ensino e teologia da Igreja Católica Romana.

Por outro lado, em reação ao liberalismo e ilegalidades por parte dos anglo-católicos dentro da Igreja Episcopal (EUA), muitos abandonaram a denominação e jurisdições independentes, que eram anglo-católicas em teologia e prática, porém de natureza conservadora em outros aspectos, foram estabelecidas. Porém, nenhuma destas jurisdições independentes é reconhecida por Canterbury ou quaisquer igrejas nacionais da Comunhão Anglicana.

Finalmente livre das restrições de Direito Canônico e costumes da Igreja, estes anglo-católicos puderam estabelecer paróquias tractarianas e enfileiraram-se junto a extremistas ritualistas ultramontanistas, enquanto formavam o seu próprio clero de tendência romanista, os quais, em sua maioria, não fizeram parte como ministros ordenados da Igreja Episcopal (EUA) ou treinados em seus seminários. Ostensivamente, reivindicaram ter rompido com a igreja-mãe como defesa do LOC de 1928 e a introdução do LOC de 1979, que consideram herético.

Porém, em vez de reter o LOC de 1928, estes grupos anglo-católicos não perderam tempo introduzindo uma novidade própria deles e inconscientemente enganando os leigos. O Missal Anglicano, versão anglo-católica da Missa Romana em inglês, depressa suplantou o uso do Livro de Oração Comum na maioria das paróquias e em muitos lugares seu uso se tornou obrigatório.

Paradoxalmente, esses que reivindicaram dividir a Igreja Episcopal (EUA) por causa da introdução de um novo LOC, tornaram-se promotores de uma liturgia estranha ao uso anglicano ortodoxo. O Missal Anglicano realmente não é um substituto para o LOC, pois contém a liturgia da Missa e ritos ocasionais para a celebração da missa, como a bênção da água benta e orações pelos mortos. Junto com a introdução Missal, o clero anglo-católico convenceu os delegados diocesanos de que o Missal nada mais era que um complemento ao LOC de 1928, rubricas que foram adicionadas para estabelecer a “ortodoxia católica” à liturgia corrompida da Reforma protestante e corrigir os “erros e falhas” do LOC de 1928. Claro que, desde que o anglo-catolicismo insiste em ter a Santa Comunhão (Missa ou Santa Eucaristia como chamam) todos os Domingos, as congregações foram enganadas em aceitar este livro como substituto do LOC, sem problemas. Eles não perceberam que uma pedra preciosa da herança protestante havia sido roubada.

Quando primeiro se introduziu (ilegalmente) para as congregações americanas, o Missal Anglicano estava publicamente condenado por mais de trinta bispos e proibido nas dioceses deles. Bispos da “Alta Igreja” como o Dr. Manning, de Nova Iorque e o Dr. Parsons, da Califórnia, foram muito francos ao declarar o Missal como uma “perversão e deturpação” do Livro de Oração Comum. A Convenção Geral da Igreja Episcopal rejeitou o Missal profundamente, condenando o seu uso como uma ameaça para o Anglicanismo no país.

As origens do Missal Anglicano, em suas versões britânica e americana, não podem ser consideradas. É suficiente dizer que nunca foi aprovado um livro de liturgias da Comunhão Anglicana, se não tem relação com o Livro de Oração Comum. No entanto, por causa da ignorância dos crentes episcopalianos em relação ao seu precioso LOC, muitos clérigos conservadores têm sido enganados aceitando mentiras. No seu desejo em proteger sua herança ortodoxa eles tem involuntariamente sacrificaram uma parte desse patrimônio inestimável.

Sim, o Livro de Oração Comum de 1928 ainda pode ser encontrado nos bancos destas igrejas anglo-romanistas: isto é o mais desagradável de tudo, um evidente engano. Para uma pobre senhora foi dito até mesmo que o Missal realmente era o Uso de Sarum, da Catedral de Salisbury, o qual o monsenhor dela considerou como a pura liturgia da Cristandade!

A ideia de muitos Reformadores protestantes, de que o Anglicanismo nunca foi realmente a favor da Reforma e completamente Protestante é, como a visão neo-anglicana, baseada visão unilateral, que só vê do ponto de vista puritano. Mas, como é evidente desde o clássico século XVI, na teologia anglicana , é impossível explicar a luta entre Anglicanismo e Puritanismo sob Elizabeth I como uma nostalgia disfarçada pela Igreja Romana, ou como uma tentativa de chegar a um acordo sem princípio.

Se a Reforma anglicana caminhou diferentemente da luterana ou de outras igrejas reformadas, isto não deve ser atribuído às influências católicas, mas a certas circunstâncias tipicamente inglesas, certos traços regionais do caráter inglês, prático e humanista.

Os bispos que puseram os alicerces do Anglicanismo durante o tempo de Elizabeth I não lutavam por um acordo entre os princípios do Romanismo e do Protestantismo. Em seus escritos não há traços de condolências com o Romanismo. Quando batalharam contra o Puritanismo, eles se preocuparam por proteger a Igreja contra a abolição prematura e míope de alguns elementos e contra a desordem e indisciplina litúrgica. Tanto quanto o governo episcopal da Igreja, a liturgia e os sacramentos estavam em conexão, por isso estava fora de questão que os bispos anglicanos daquele tempo incluíram qualquer coisa de Romanismo. Elizabeth I não teve nenhum outro objetivo que dar ao movimento de Reforma um caráter austero e estilo próprio. Mas a Reforma Anglicana nunca alcançou uma posição estática, onde nada poderia ser mudado ou revogado. Mais do que luteranos e reformados protestantes, o anglicanismo conseguiu concretizar os ideais universais cristãos dos reformadores.

Também preservou uma certa abertura para a Igreja Católica e às interpretações reformadas da fé. Levou a sério o princípio “ecclesia catholica semper reformanda” – “Igreja católica sempre se reformando”. Por sua natureza, o Anglicanismo tem uma visão ampla. Além disso, tem uma grande reverência para o que surgiu lentamente, que foi experimentado, o que sempre foi aceito – em resumo – pela tradição (não se confundindo com o conceito católico de tradição).

Não se pode negar que com o passar do tempo, a visão da verdadeira reforma e protestantismo para muitos anglicanos ficou nublada. O crescimento de um subjetivismo pietista e um individualismo liberal influenciou negativamente a visão protestante, forças destrutivas que não têm o devido respeito pela antiga tradição cristã e os valores da comunidade.

Em alto grau, o Anglo-catolicismo teve êxito lançando fora os últimos rastros do Anglicanismo relacionado à Reforma. Isto produziu um tipo de esquizofrenia eclesiástica e teológica no Anglicanismo Mundial, enquanto deixa a Comunhão Anglicana profundamente dividida e incapaz de lidar com muitas divisões no Cristianismo do século XX.

O Anglo-catolicismo, uma vez aceito como um remédio contra o racionalismo e o humanismo, provou ser um trabalho inadequado. Historicamente estranho à verdadeira tradição inglesa e ao Clero Britânico e Americano, tornou-se naquilo que veio a combater: um liberalismo, sem regras e radical ao extremo.

O Anglicanismo deve ser chamado de volta para suas bases da Reforma e da teologia histórica: sem essa valorização do seu patrimônio protestante, ele está em perigo de desaparecer.

A última decisão para os crentes anglicanos não falhará entre a indefinição entre protestantismo ou catolicismo, mas em escolher entre o cristianismo do Papa ou o Bíblico.

Autor: Rev J. I. Packer, ministro anglicano e teólogo.

2016-12-09T01:01:24+00:00