Verdades em momento de apostasia

Sermão do 3º Domingo depois da Epifania

Amós 3: 1-8; I Coríntios 1: 10-17; Mateus 4: 12-23

Introdução

Alguém já disse que o Brasil é o maior pais Católico do mundo; este também é o maior pais espírita do mundo e o pais com uma das mais elevadas taxas de aumento da população evangélica do planeta. Este é o país no qual, dependurado na parede atrás do líder de cada poder (executivo, legislativo e judiciário), encontramos um crucifixo, e onde, escrito em nosso papel moeda podemos ler: “Deus seja louvado”. No entanto, este é também o pais do “lava-jato”, do “velerioduto”, dos super-salários, dos privilegiados e dos corruptos. Este é o país que se caracteriza por um dos maiores índices de corrupção do planeta. Cristo está em todos os lugares, e em lugar nenhum. Isso ocorre porque somos um país de pagãos batizados. Eis a diferença entre a cristandade e o cristianismo. Uma sociedade apóstata pode manter a estética cristã sem, contudo, manter o conteúdo do evangelho de Cristo.

Elucidação

Amós vivia em uma sociedade caracterizada pela ilusão da prosperidade. Conforme afirma Dionísio Pape, “A nação de Israel, no norte da Palestina, tinha experimentado no reinado do inteligente monarca Jeroboão II um desenvolvimento inigualado”. Samaria, a metrópole daqueles dias, vivenciava momentos de frenética movimentação de dinheiro. Toda a sociedade se havia entregue à luxúria e à devassidão. É nessa situação de absoluta entrega aos prazeres que o dinheiro pode trazer que Deus levanta, no reino de Judá, em uma pobre aldeia chamada Tecoa, um pobre e rude pastor, criador de gado e cultivador de sicômoros, para falar em Seu nome para uma sociedade rica, nababesca, mas apóstata. Diante do que foi exposto, refletiremos hoje sobre o tema: Verdades em momento de apostasia. Segundo o texto de Amós, há pelo menos três grandes verdades que Deus quer revelar e que precisam ser relembradas quando o povo escolhe viver longe de seu Deus:

I. QUE O ACORDO QUE HAVIA SIDO FEITO FOI QUEBRADO (v. 1-3)

1. Entre o Senhor e os filhos de Israel (v. 1). O discurso do profeta começa com uma conclamação ao povo: “Ouvi a palavra que o Senhor fala contra vós, outros, filhos de Israel”. E este povo, estes filhos de Israel, são identificados com “toda a família que ele fez subir da terra do Egito”. Este foi o povo com quem Deus fez um acordo que remonta à saída de Israel do Egito. Eis os participantes do pacto: Israel e Javé.

2. Somente Israel era o beneficiário do acordo (v. 2).  “De todas as famílias da terra somente a vós outros escolhi”. Outra possibilidade de tradução diz que de todos os povos Deus só “conheceu” a Israel. Segundo Charles Feinberg “Conhecê-los no sentido dessa passagem é escolhê-los, separá-los para seu propósito divino. Deus tomou-os para ser o seu povo e lhe concedeu privilégios especiais para testemunho”. A situação de Israel era, certamente, privilegiadíssima entre as nações do mundo. Mas Israel precisava entender que eleição significava responsabilidade.

3. Mas os dois não estão mais andando juntos (v. 3). O acordo entre Deus e Israel, estabelecido em pedra no Sinai, no entanto, foi quebrado. Como afirma J.A. Motyer, “Um acordo assim foi feito entre o Senhor e seu povo, no Êxodo, e eles começaram a ‘andar juntos’ (cf. Jr 2:2, onde o verbo andar é traduzido por ‘seguir’), mas agora o povo se tornou infiel e tem de ser disciplinado”. Apesar de ser a nação escolhida por Deus para dar testemunho entre as nações, somente um ignorante imaginaria que Deus perdoaria os desmandos de Israel. Muito ao revés, afirma Feinberg “visto que Deus levou Israel a gozar de sua intimidade, certamente, com maior razão, ele fará recair sobre a cabeça da nação todas as suas iniquidades”. Lembremos que a quem muito é dado, muito será cobrado.

Aplicação

A leitura do Evangelho de hoje mostra Jesus depois de sua tentação no deserto, deixando a Galileia e se dirigindo à Cafarnaum. Nesse processo ele começa a pregar o Evangelho que impõe um arrependimento. É preciso arrepender-se porque o Reino dos céus está próximo (Mt 4: 17). Esta pregação obviamente produzia frutos entre os que o ouviam, vez que Pedro e André abandonaram as redes para se tornarem pescadores de homens. Mais a frente João e Tiago também se juntam à Jesus. Isso significa que, por mais dura que seja a mensagem, ela sempre encontrará um coração aberto para acolhê-la. Em nossa sociedade licenciosa, falar em arrependimento pode até parecer algo fora de propósito. Mas devemos sempre lembrar que é o Espírito quem convence o homem da justiça do pecado e do juízo (Jo 16: 8). Coloquemo-nos nas mãos do Espírito Santo e Ele nos usará para profetizar contra os que quebraram a aliança com Javé.

II. QUE JAVÉ PASSA A ASSEGURAR SUA REPREENSÃO (v. 4-6)

A partir desse versículo vemos um cântico feito com diversas estrofes nas quais Deus apresenta uma série de perguntas de retórica. Cada uma delas, por sua natureza, com a resposta implícita.

1. Afirmando que suas ameaças não são vazias (v. 4). As duas perguntas do verso 4º fazem referência ao leão e ao leãozinho. Porventura o leão ruge sem que tenha a presa em suas garras? Pode o leãozinho elevar sua voz sem que nada tenha apanhado? A resposta às duas perguntas é um “não”. O Senhor, como o leão, já tem sua presa em suas garras. Esta referência ao ambiente selvagem do campo é comum na mente do profeta. Isso significa que, na mente do profeta, quando Deus, o leão, está rugindo, o povo deve se preparar para seu ataque.

2. Afirmando que seu julgamento não foi gratuito (v. 5). O versículo 5º usa a metáfora do laço que se levanta ou do gatilho que dispara a armadilha para prender a ave, para demonstrar que a ação de Deus contra Israel não é sem razão ou sem propósito. A ave caiu na armadilha por sua culpa e por sua escolha. Da mesma forma, foi o povo que fez a escolha errada e preferiu servir a outros deuses e a viver uma vida dissoluta e pecaminosa. Esse povo não pode culpar o Senhor por suas escolhas. O juízo de Deus tem fundamento!

3. Afirmando que dele não se zomba (v. 6). No verso 6º vemos o profeta usar a metáfora do toque da trombeta, que anunciava um ataque iminente, para dizer que o povo não poderia zombar de Deus sem colher as consequências de seus atos. De Deus não se zomba e aquilo que o homem semear, isso também ceifará, diz as Escrituras (Gl 6:7). Porventura, pergunta o profeta, “sucederá algum mal à cidade sem que o Senhor o tenha feito?”. Conforme assevera Motyer, “Ele não é um senhor ausente no mundo que criou; ele não abdicou nem delegou seus poderes. Ele governa e executa o julgamento e a justiça”. Javé é o Deus diante de quem todos, um dia, enfrentarão.

Aplicação

Na leitura da Epístola aos Coríntios, Paulo faz uma exortação à unidade da igreja em Corinto, reconhecendo que ela é uma igreja divida em facções que procura ser melhor e mais santa do que a outra. Paulo admite que batizou algumas daquelas pessoas, mas afirma que seu maior e mais importante trabalho consiste em “pregar o evangelho; não com sabedoria de palavras, para que não se anule a cruz de Cristo” (I Co 1: 17). Para aquela cidade particularmente licenciosa e pecaminosa, Deus envia um profeta que prega o evangelho na sua pureza, ainda que seja intelectualmente preparado. Precisamos de profetas que, como Paulo, passem pela experiência do encontro com Cristo e que seja capaz de abandonar a tudo para segui-lo. Você está disposto a se tornar um profeta como Paulo?

III. QUE DEUS CONTINUA A FALAR POR SEU PROFETA (v. 7, 8)

1. A quem revela seus segredos (v. 7). Enquanto as pessoas especulam sobre os fatos que ocorrem no mundo, na sociedade e em todas as esferas, ao profeta lhe é dado conhecer o verdadeiro segredo do que está acontecendo. Isto significa que há uma diferença entre o acontecimento que é observado pelas pessoas e seu verdadeiro sentido. Conforme afirmam Balancin e Storniolo, “os acontecimentos ficam com uma casca grossa produzida pelas ideias e interpretações que vigoram dentro do sistema vigente. Estas ideias e interpretações são impostas por aqueles que se beneficiam de um determinado sistema e não querem transformações, porque estas prejudicariam ou acabariam com seus privilégios”. Aqueles que vivem presos a esse sistema de coisas não conseguem ver a realidade da forma que o homem de Deus enxerga. É por isso que Amós afirma: “o Senhor Deus não fará coisa alguma sem primeiro revelar a seus servos, os profetas”.

2. A profecia é inevitável quando Deus fala (v. 8). Nestas palavras descobrimos que o profeta não fala por sua própria vontade, mas impulsionado por Deus. Ele não tem escolha; essa é uma atribuição imperativa, por isso Amós pergunta: “Falou o Senhor Deus, quem não profetizará?”. O profeta de Deus não tem escolha. Ele tem que falar porque Deus o mandou falar e tem que falar o que Deus lhe mandou falar.

Conclusão

Em uma conhecida música composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, chamada “Nos bailes da vida”, os autores, a certa altura escreveram: “Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está”. Assim como o artista que se apresenta nos bailes da vida, o profeta de Deus apresenta a mensagem do Evangelho nos púlpitos de nossas cidades, ainda que isso nos leve aos lugares mais remotos. Precisamos ver surgir profetas que preguem o velho evangelho de Cristo a uma sociedade nominalmente cristã, mas que, a muito, abandonou os valores e os padrões expostos na Palavra de Deus. De nada adianta expor camisas ou bonés com frases bíblicas ou ainda colocar plásticos religiosos no seu carro. Precisamos de pessoas que tenham o seu coração no projeto de Deus e que estejam dispostos a pregar as verdades de Deus nessa nossa sociedade apóstata e pós-cristã.

Autor: Rev. Cônego Jorge Aquino

 

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2017-03-09T12:28:19+00:00