4º Domingo depois da Epifania

Miquéias 6: 1-8; I Coríntios 1: 26-31; Mateus 5: 1-12

Introdução

Quem vai a um Tribunal do Júri pela primeira vez, imediatamente fica impressionado com o papel imparcial do juiz, observando o Ministério Público acusando e o advogado de defesa procurando desconstruir as acusações lançadas contra seu cliente. Esta é, certamente, uma experiência na qual qualquer neófito fica surpreso com a capacidade de se utilizar a oratória e a retórica para convencer o júri acerca de suas teses. Somente depois de horas de debate, de argumentações e contra argumentações, e, finalmente com a apresentação da sentença, o futuro de quem está sendo acusado fica determinado.

Elucidação

No texto do Antigo Testamento de hoje encontramos uma espécie de julgamento cósmico, no qual Deus, agindo tanto como promotor quanto como juiz, apresenta suas acusações contra seu povo e apresenta a única saída para uma religião saudável diante dEle. Nas palavras de Charles Feinberg, “O capítulo seis é apresentado na forma de uma controvérsia entre o Senhor e seu povo errante. O mesmo método é empregado em Isaías um e no primeiro capítulo de Miquéias”. O que temos diante de nós é o contraste entre a justiça de um Deus exigente e a ingratidão e a superstição de seu povo. Frente a essa realidade, refletiremos hoje sobre o tema: A reação divina à infidelidade de seu povo. De acordo com este texto, há pelo menos três grandes gestos que Deus faz e que representa a reação de Deus frente a infidelidade de seu povo:

I. INSTAURA UM TRIBUNAL CONTRA ISRAEL (v. 1-5)

1. Para o qual os montes e fundamentos da terra são invocados como testemunhos (v. 1, 2). O pecado do povo era tão flagrante que mesmo objetos inanimados servem como testemunhas contra Israel. O verbo usado no hebraico para invocar os montes é “rîb” e tem o sentido de “convocar para um pleito”. Segundo Charles Feinberg “O profeta convoca os montes e os outeiros para que sirvam de testemunhas da queixa do Senhor contra seu povo. O Senhor tem uma controvérsia com Israel. Chamar na natureza inanimada – os montes e os fundamentos duráveis da terra – como testemunhas, era um método que os profetas usavam para demonstrar a hediondez do pecado humano”.

2. No qual Deus ainda manifesta sua benevolência (v. 3-5). Deus, em sua plena bondade, fala nesse texto utilizando uma linguagem que revela claramente toda a sua benevolência para com aquele povo infiel. E Ele faz isso:

(A) Chamando Israel de “povo meu”. Mesmo apesar de seu pecado, Deus ainda se refere à Israel como “povo meu”, indicando de forma óbvia o seu desejo de continuar se relacionando com eles. Certamente em Sua mente ainda estava a memória das promessas feitas à Abraão, Isaque e Jacó.

(B) Lembrando-o das promessas cumpridas. “Sitim” foi o último lugar onde o povo acampou antes de cruzar o Jordão e Gilgal, o primeiro acampamento depois da entrada na terra prometida.

Aplicação

Na primeira Carta de Paulo aos Coríntios, apesar de toda sorte de problemas que aquela igreja manifestava, Paulo ainda escreve com características de um pai afetuoso, lembrando tudo o que Deus havia feito pelo seu povo. Ele nos lembra que “não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento” (I Co 1: 26). Deus poderia ter chamado esse tipo de gente, mas preferiu escolher os eleitos na igreja de Corinto. Por isso ele diz no verso 27 que “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios”, e “as coisas fracas do mundo para envergonhar os fortes”. Ele, em sua providência preferiu chamar os humildes e os desprezados e os que “não são”, para reduzir a nada as “que são” (v. 28). E Ele assim o fez para que ninguém se vangloriasse na presença dele. Da mesma forma Deus escolheu o “vermezinho de Jacó” e o “povozinho de Israel” (Is 41: 14) para manifestar nele sua glória. Apesar de ser um povo que se revelou difícil em se lidar, a misericórdia de Deus sempre foi enorme para com aqueles a quem Ele ama.

II. ACUSA O POVO DE HIPOCRISIA (v. 6, 7)

Esta parte do texto começa com uma questão que pode ser encontrada no coração de todos os homens: de que forma eu poderei ser aceito por Deus? Lendo o contexto vemos que o povo de Israel não estava realmente interessado em adorar a Deus. Eles queriam mesmo é escapar de seu julgamento. Segundo afirma Dionísio Pape, Deus enxerga “a incoerência entre a profissão de fé articulada no Dia do Senhor no seu santo templo, e a maneira puramente mundana com que o seu povo faz os negócios durante a semana, extorquindo um gordo lucro injustificável, e mantendo dois registros de venda: o oficial para o fisco do governo, e o real para o comerciante tão religioso (no dia do Senhor). Deus detesta esta duplicidade, e anunciou o seu castigo severo”. Diante das acusações bem fundamentadas feitas pelo Senhor, o povo propõe uma espécie de compensação cultual.

1. Deus não aceita seus holocaustos. O único recurso que a Lei previa para que o homem fosse perdoado de seu pecado seria a oferta de holocausto. E era justamente esse a primeira tentativa dos hipócritas: apresentar ao Senhor sacrifícios de “bezerros novos”, que representariam os mais puros animais para satisfazer a Deus. A questão apresentada aqui é a de qualidade.

2. Deus não aceita os carneiros nem a libação. Diante da possibilidade da rejeição do primeiro sacrifício, o povo imaginou uma outra tentativa de “convencer” Deus a perdoa-lo: o sacrifício de milhares de carneiros e de dez mil ribeiros de azeite. A questão levantada agora, não tem a ver com a qualidade do sacrifício, mas com a quantidade dele. Deus também não aceita essa oferta, por maior que fosse, porque seu interesse está em um coração contrito e puro diante dele.

3. Deus não aceita o sacrifício de primogênitos. Por fim, e para demonstrar o quão distante estava o povo de seu Deus e o quão influenciado estava pelas práticas pagãs, que eles sugerem que seja realizado o sacrifício de seus próprios filhos primogênitos, que era uma prática feita pelos moabitas e fenícios.

Aplicação

Este tipo de recriminação feita por Deus é comum nos profetas. Isaías escreve contra a hipocrisia do culto em Israel por meio de uma série de perguntas e afirmações. De que serve a multidão de sacrifícios? E mais: “Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes” (Is 1: 11). Deus é extremamente visceral na recusa desse tipo de culto. Diz Ele: “Não continuem a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, os sábados, e as convocações das congregações” (Is 1: 13). E arremata, no fim desse versículo, de forma avassaladora: “não posso mais suportar a iniquidade associada ao culto”. O verdadeiro culto que Deus aceita vem daquele que é “limpo de mãos, puro de coração, não entrega sua alma à falsidade e nem jura dolosamente” (Sl 24:4). Você pode se identificar dentre essas pessoas?

III. SÓ ADMITE PERDÃO NA MUDANÇA DE COMPORTAMENTO (v. 8)

Segundo nos diz Charles Feinberg, “Deus requer não algumas coisas exteriores, mas certas qualidades do coração”. O que precisamos lembrar é que somente um coração arrependido e regenerado pelo Espírito Santo poderá cumprir cabalmente essas exigências. Deus clama de forma clara à Israel: “Ó homem, o que o Senhor pede de ti”, e apresenta suas exigências. Elas nada tem a ver com a formalidade do culto, mas com um caráter regenerado.

1. Que o povo pratique a justiça. A mesma palavra que é traduzida aqui por “justiça”, também significa aquilo que é “direito”, ou seja, o que não se inclina nem para um lado nem para o outro. O cristão não pode ter dois pesos e duas medidas. Sua palavra é “sim, sim e não, não”.

2. Que o povo ame a misericórdia. O povo de Deus precisa refletir o caráter de seu Senhor. Ter misericórdia é ter a capacidade de sentir a dor do outro e de sofrer com sua desgraça. Foi por isso, por “ouvir o clamor de seu povo”, que Deus resolveu chamar Moisés para que ele se tornasse o libertador de seu povo. Sua motivação em libertar o povo do Egito, portanto, foi motivado por sua misericórdia.

3. Que o povo ande humildemente com seu Deus. Sabemos que o verbo “humilhar-se”, em hebraico “hsn‘” é extremamente raro e aponta para a ausência de arrogância diante de Deus. Aliás, quem permaneceria de pé diante do Todo-Poderoso? Lamentavelmente ainda existem religiosos que acham poder dizer a Deus o que Ele pode fazer e quando.

Conclusão

No texto de Mateus indicado para hoje, vemos o início do Sermão da Montanha e a apresentação das chamadas “Bem-aventuranças”. Todas elas – bem como todo o restante do sermão – apontam para o caráter do verdadeiro cristão. Não temos aqui uma simples lista de bom comportamento, mas um manual de vida cristã. Gostaria, no entanto, de chamar a atenção para um fato muitas vezes esquecido. Os primeiros bem-aventurados são os “humildes de espírito”. Ora, quem são esses? Esses são os que se humilharam perante a presença de Deus e reconheceram sua realidade de pecado e de miséria. Em seu espírito não existe lugar para a arrogância. Somente esses, os que realmente são humildes em seu espírito, entrarão no reino dos céus. A partir daí, todo o resto do sermão faz sentido.
Meu querido amigo, somente os humilhados serão exaltados. Somente quem seguir o exemplo de João o Batista, que não se achou digno sequer de desatar as sandálias dos pés de Jesus, entrarão, com Ele, no seu reino. Você está disposto a abrir mão de todos os gestos religiosos e boas obras que praticou para considerar-se um servo inútil? Se esse for seu caso, o Senhor, justo juiz, o justificará e perdoará de todos os seus pecados.

Autor: Rev. Cônego Jorge Aquino

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