A Mulher Pastora

Eu já tenho alguns anos no pastorado. Uma das coisas que preciso reconhecer é que sem a ajuda da minha esposa eu não teria feito muito do que fiz, especialmente em uma ou duas comunidades que plantamos juntos. Não foram poucos os que sugeriram que, cedo ou tarde, eu deveria ordená-la “pastora” também. E, do ponto de vista prático, reconheço que ela provavelmente se daria muito bem, uma vez possuir um dom nato para a liderança. No entanto, nunca sequer cogitei isso, e ela, até onde sei, também não. Lembro que na denominação onde fui ordenado houve um debate sobre o assunto, e votamos contra. Anos depois, quando entramos na Igreja Anglicana Reformada do Brasil, um dos emblemas que nos atraíram foi a posição contrária a Ordenação Feminina.

Contudo, como era de se esperar, essa semana a Igreja da Inglaterra aprovou um documento que torna a ordenação de mulheres ao Episcopado coisa possível. Felizmente, as igrejas anglicanas são autônomas, e o que a Igreja oficial da Inglaterra decide não necessariamente será aceita pelas demais, e vice-versa. Porém, sendo anglicanos e contrários a decisão daquela que vou tomar a liberdade de chamar de “igreja mãe”, nada mais justo que expor aqui as nossas razões, bíblicas e teológicas. Mas antes uma observação: tanto eu, quando a IARB não faz desse ponto uma linha divisória, no sentido de romper relações eclesiásticas. Nós podemos reconhecer uma igreja como sendo cristã mesmo que ela, infelizmente, faça opção pela Ordenação Feminina.

Não à relativização das Escrituras

Eu espero que a IARB jamais cogite a questão de ordenar mulheres às Sagradas Ordens, ainda que, pessoalmente, apoiaria, por exemplo, a criação de ordens leigas, sem nenhum problema. Até porque minhas razões contra tal modelo de ordenação nada tem a ver com a capacidade das mulheres. Eles, de fato, são extremamente capazes, e algumas, provavelmente mais capazes que muitos homens que hoje lideram o povo de Deus. Não duvido da capacidade das mulheres, simplesmente espero me manter fiel as Escrituras.

Escrituras que, claramente, são contrárias ao exercício da autoridade na Igreja por parte das mulheres.”A mulher aprenda em silência, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (I Timóteo 2.11-14).

Argumenta-se que as palavras do apostolo estejam culturalmente limitadas. Suas palavras foram direcionadas somente àquela cultura, tendo em vista o machismo de então, e, portanto, não se aplica ao mundo moderno, mais esclarecido. Eu chamo esse argumento de relativização das Escrituras, pois, ainda que ele não negue a inspiração das palavras apostólicas, afirma categoricamente que ela deixou de ser normativa. Ora, se o próprio texto, ou contexto nos afirmassem tal limitação, não haveria problemas. No entanto, o texto nada diz sobre estar culturalmente limitado, mas alega fundamentar-se em uma razão teológica muito mais sólida e permanente: a ordem da Criação.

Por mais que os teólogos modernos se esforcem para encontrar na cultura daqueles dias o motivo das palavras de S. Paulo, o apóstolo por sua vez encontrou o motivo na narrativa do Gênesis: “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva”. Ele não diz que a mulher não poder liderar a Igreja por causa da cultura da época, por causa do machismo de seu tempo, ou qualquer outra razão cultural. Muito pelo contrário, segundo o apóstolo, a razão está na ordem natural da Criação, estabelecida pelo próprio Deus. Ainda que a visão de mundo das pessoas tenham se modificado várias vezes, e de vários modos ao longo desses dois mil anos, a ordem da Criação permanece inalterada, e portanto, a proibição apostólica continua tão autoritativa quanto antes.

Costumo dizer que a Ordenação Feminina é um flerte com o liberalismo teológico, ainda que seus defensores possam ser cristãos de fato. Não quero ofender quem quer que seja, contudo, é justamente relativizando as Escrituras, interpretando-as pelos olhos da filosofia moderna, que a Igreja tem aberto suas portas a outros costumes como, por exemplo, a Ordenação de Homossexuais. Não se nega que os apóstolos e as Escrituras de um modo geral condenam o Homossexualismo, mas argumenta-se que os escritores bíblicos estavam condicionados pela cultura da época. Involuntariamente, a Ordenação Feminina pode abrir uma porta muito perigosa.

Por fim, assim como creio que a proliferação do homossexualismo em nosso tempo não apenas trará condenação maior para nossa geração, mas já é , por si só, sinal e evidência de tal condenação, também a proliferação de mulheres liderando a Igreja é um emblema do Juízo de Deus.

São essas mulheres como as “Déboras” de nossa geração? Se são, então como ela exercem uma função originalmente dada aos homens, os quais, por covardia e despreparo, se tornam omissos ou incompetentes – ou as duas coisas. De fato, acredito que elas fazem o trabalho de Deus. Sim, acredito que pessoas são salvas e restauradas sob seus cuidados. Mas, nada disso altera o fato de que a Igreja de nossos dias está sob o Juízo do Senhor.

Autor: Rev Marcelo Lemos

2016-12-09T01:01:24+00:00